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PROGRAMA DE FORMACAO DE RELIGIOSAS NA AREA DE ASSISTENCIA AS VITIMAS DO TRAFICO DE SERES HUMANOS De 23 a 28 de Outubro de 2006, realizou-se em Lisboa, S. Domingos de Rana na casa Seminário dos Padres Espiritanos, um encontro de formação promovido pela UISG (União Internacional das Superioras Gerais) em parceria com a OIM (Organização Internacional para as Migrações), sobre “Tráfico de Seres Humanos”, dirigido a Religiosas. Dia 23: Na sessão de abertura estiveram presentes a Dra. Mónica Goracci, representante da OIM em Portugal, e o Alto Comissário, Dr. Rui Marques, que dirigiu umas palavras de saudação às 37 participantes de diferentes Congregações Religiosas Femininas em Portugal e representantes dos países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné, Moçambique e S. Tomé e Príncipe. Ainda durante a manhã, os formadores - Stefano Volpicelli, sociólogo, e irmã Franca Artini, representante da UISG - e as participantes fizeram a sua apresentação. Estas expressaram também as suas expectativas. Durante a tarde, foram apresentados os objectivos e a metodologia desta acção de formação. Seguiu-se um trabalho de grupo para a análise de casos-tipo, destacando as características de cada caso e apresentando uma definição de “Tráfico de Seres Humanos”. Depois do Plenário, Stefano desenvolveu o Perfil das migrações internacionais e deu-nos a definição internacional de “Tráfico de Seres Humanos”, inserindo-o no contexto da globalização e do desenvolvimento dos meios de comunicação social. O dia foi terminado com um tempo de oração em grupo e partilhada em Plenário com textos bíblicos e cânticos que sintetizavam a experiência vivida. Dia 24: Os trabalhos foram iniciados com uma breve oração preparada por duas das participantes. Foi lido o resumo do dia anterior e foi dado um tempo para levantar questões acerca do último assunto tratado. Dados todos os esclarecimentos, Stefano retomou a definição de Tráfico, apresentando a diferença entre Tráfico e outros fenómenos com alguns pontos comuns, mas que não podem ser identificados com o Tráfico de seres humanos: Contrabando de seres humanos, Trabalho irregular, Exploração sexual. Foi destacado que devemos ter consciência disso porque cada fenómeno tem de ser tratado de forma diferente. O factor medo está presente em todos os fenómenos. Foi sublinhado que o que está em causa é a defesa dos direitos humanos. Num segundo momento, foram indicados vários organismos presentes em Portugal que, de alguma maneira, têm uma acção concreta neste campo: ACIME, OIM, CIDM, FORCIM (JSR, JP-CIRP, CNJP, OCPM, OIKOS, CEPAC, Cáritas e Ninho). Foram também indicadas Congregações/Instituições que, em Portugal, fazem acolhimento às vítimas: Adoradoras, Oblatas, Bom Pastor e Ninho. As irmãs Adoradoras apresentaram o Projecto Esperança, rede internacional, a nível de Congregação, com sede em Madrid. Todas as representantes dos países lusófonos falaram da situação local ao nível eclesial e governamental. Depois desta partilha, Stefano salientou as diferenças de local para local quer a nível de leis, quer a nível do modo de agir dos traficantes/exploradores, apresentando a fórmula dos três Pês: P= Prevenção P= Persecução (perseguição ao traficante) P= Protecção. Durante a tarde, a irmã Franca debruçou-se sobre os riscos sanitários que as vítimas do Tráfico enfrentam quer durante a viagem, quer à chegada do país de destino, quer no regresso ao país de origem. Foi muito sublinhado que nenhuma ajuda deve impor uma decisão que só pertence à vítima em causa. Seguiu-se uma discussão muito viva e participada… O dia terminou com um tempo de oração em grupo, seguindo-se a Eucaristia. Dia 25: Depois de breve oração, baseada na Carta de João Paulo II sobre o Tráfico de Seres Humanos, e avaliação do dia anterior, Stefano iniciou os trabalhos, lembrando as características da vítima apontadas no primeiro dia. Tendo isso em conta, ressaltou que, na Prevenção, deve ser dada uma importância muito grande aos aspectos positivos, levando-nos, em pequenos grupos, a detectar esses aspectos nas histórias já analisadas. Apresentou a diferença entre Informação (dá apenas a conhecer) e Prevenção (visa mudar comportamentos). O agente da Informação pode estar à distância e o da Prevenção tem de estar, necessariamente, envolvido, faz caminho com… Como sempre, antes de expor o assunto, pediu que, em grupo, as participantes reflectissem sobre a Prevenção nas suas três fases: Primária, Secundária e Terciária desde a perspectiva médica, isto é, evitar o indesejado; impedir que se piore a situação; evitar graves consequências. Partiu do resultado do trabalho dos grupos para desenvolver o tema. Depois de ter falado da prevenção Primária e Secundária, nos países de origem e de destino, convidou as participantes, com experiência de trabalho de rua, a partilharem o saber que lhes vinha desse contacto concreto. Na parte da tarde, Stefano terminou o tema (Fase Terciária), destacando que é no momento de libertação da Rede de Tráfico que mais precisam de ajuda porque nesse momento, normalmente, tudo se desmorona. Seguiu-se a elaboração de cartazes de Projectos para a Prevenção, em quatro grupos. A sua apresentação suscitou alguns comentários que chamavam a atenção para aspectos a ter em conta na forma de abordagem. Os trabalhos terminaram com um tempo de oração pessoal e em plenário, seguido de Eucaristia. Após o jantar foram apresentados um vídeo e um CD da representante de Moçambique que relatavam casos de tráfico de jovens e crianças…
Dia 26: O dia começou com uma breve oração. Seguiu-se a leitura da síntese do dia anterior. Antes de entrar no assunto programado, algumas participantes pediram esclarecimentos sobre as imagens de Moçambique, vistas na noite anterior. Franca iniciou os trabalhos. Desenvolveu o tema “Relação de Ajuda”, seguindo os esquemas que as participantes têm na sua pasta com simultâneo suporte informático. Sublinhou as práticas de intervenção, privilegiando o sistema não directivo que incentiva a Autonomia, enquanto o directivo pode levar à dependência da pessoa ajudada. O importante é: ESCUTAR (o ponto de vista do outro, saber repetir), OBSERVAR (o verbal, o não verbal e o contexto), RESPONDER (de forma clara e simples, não se “sobrepondo”) No fim da manhã, Stefano propôs às participantes que fizessem um teste: “A resposta natural” (Dez casos tendo cada um 6 hipóteses de resposta escolhendo apenas uma delas. No final havia uma tabela onde assinalávamos a escolha). A tarde foi iniciada com a leitura da tabela. Cada coluna indicava uma tendência natural. As participantes puderam, assim, conhecer a sua tendência, vendo a coluna onde incidiam as suas respostas. Foi sublinhado, mais uma vez, que a ajuda tem de começar por tentar construir uma confiança, dado que a pessoa já está saturada de “ajudas enganosas”. É natural que ela pense que esta oferta seja mais um engano. O “empowerment”, como processo, foi o assunto que ocupou o resto da tarde. A sua finalidade é o fortalecimento da auto-estima da vítima, isto é, a pessoa sentir-se bem consigo mesma, nada tendo a ver com o nível de vida ou a função que desempenha. Isto implica dar um pequeno passo de cada vez. O dia terminou com um tempo de oração em grupo e em Plenário seguido da Eucaristia. Dia 27: Iniciámos os trabalhos com uma breve oração e a leitura da síntese do dia anterior. Não tendo surgido questões acerca do processo de “Empowerment”, Franca passou a desenvolver o tema burn out (Esgotamento). Apresentou uma definição na perspectiva psicológica e as estratégias para o prevenir e tratar. Quem ajuda pode posicionar-se ao longo de dois eixos. O vertical: omnipotência e impotência (energia psicológica); o horizontal: distância e proximidade (distância psicológica). A posição que teoricamente representa o equilíbrio é o centro para não se cair no narcisismo (entre a omnipotência e a distância), no hiper-envolvimento (entre a omnipotência e a proximidade), na conspiração (entre a proximidade e a impotência) e no esgotamento (entre a impotência e a distância). Uma das formas de prevenir o esgotamento é fazer a revisão, individual e/ou em grupo, da própria função e do modo de a exercer, considerando os objectivos e os limites. Um modo simples de fazer essa revisão é seguir a sigla SMART para verificar se o objectivo está a ser: eSpecífico (delimitar a acção), Mensurável (delimitar o campo), Atraente (significativo), Realizável (alcançável) e Tempificado (prazos, datas). Foi dado um destaque muito forte ao apoio espiritual, a mística, neste trabalho de Ajuda à Vítima. Indicou os sete passos úteis para fortalecer a energia (força dinâmica de vida que acompanha o crescimento) delineados por Cynthia J Osborne: Selecção (reconhecer os próprios limites), Sensibilidade temporal (utilizar melhor o tempo), Responsabilidade (ser profissional e colaborar em equipa), Medição e gestão (gerir as próprias energias), Curiosidade (cultivar o sentido positivo e novo da vida), Negociação (consciência de que damos e recebemos nas relações de ajuda) e Reconhecimento (das causas, sua importância e urgência). Depois, Stefano lembrou os objectivos do 1º dia, isto é, adquirir uma linguagem comum sobre o “Tráfico de seres humanos” e organizarmo-nos em Rede. Para criar uma rede é preciso definir o processo e cada passo implica um exercício em grupo.
1º exercício: partilhar o carisma e ver quais os pontos de encontro em relação à questão do Tráfico de Seres Humanos em quatro grupos. No plenário foi perceptível que todas as Congregações tinham, pelo menos, algum aspecto que podia abranger esta área. 2º exercício: que tipo de colaboração cada uma poderia dar num projecto intercongregacional, apontando os benefícios e limites. A partilha em plenário gerou um grande debate, não tendo chegado a nenhuma conclusão, embora as participantes se orientassem para a formação de um grupo que não deixasse perder o impulso recebido neste curso. O dia terminou com a oração em grupo e plenário seguida de Eucaristia. Após o jantar as participantes tiveram um serão recreativo. Dia 28: Às 8h tivemos a Eucaristia. Os trabalhos iniciaram com uma oração multicultural, cheia de mensagem, cor e movimento. Cada país estava simbolizado por uma vela. Stefano, fazendo o ponto da situação, começou por perguntar quem, nesta assembleia, estava já envolvida concretamente nesta luta: 5 irmãs de duas Congregações. Duas já fazem parte de Redes. Pediu, depois, às irmãs que representavam os países lusófonos se viam a possibilidade de, nos respectivos países, trabalhar em colaboração. Todas se manifestaram acreditando no sim e comprometendo-se em envolver as várias instâncias que representam. Nesta fase, encontraram-se nove elos entre grupos existentes em Portugal e os países lusófonos que podem fazer parte de um primeiro nível de Rede, isto é, uma Rede frágil porque cada um dos elos é apenas activado quando necessário e exige, apenas, uma participação voluntária. Num segundo momento, por uma questão de eficácia, chegou-se à conclusão da necessidade da existência de um centro de coordenação para manter o contacto com todas as participantes e estabelecer conexão entre os vários grupos/redes afins. Este grupo facilitaria a rentabilização da investigação, a sua divulgação e colaboração entre todas. Partindo da Comissão Justiça e Paz da cirp, organizou-se, então, um grupo específico com a participação de irmãs Adoradoras, Oblatas SSmo Redentor, Teresianas, Bom Pastor e Coração de Maria, confiando na aprovação das respectivas congregações. As participantes entregaram, por escrito, a sua avaliação seguida de uma partilha do sentir de cada uma sobre os objectivos iniciais. Todas sentiram que os objectivos foram atingidos sobretudo no que respeita ao primeiro. O facto de se ter já criado uma comissão, cujos elementos serão confirmados pelas respectivas Superioras Provinciais e pela CIRP, deixa a esperança de que algo cresça. Surgiu também o apelo de um trabalho em rede que inclua leigos/as, outras instituições/organizações já a trabalhar neste campo. Todas apreciaram a forma clara e simples dos formadores (Franca e Stefano) assim como o método participativo que usaram. Manifestaram ainda o interesse e a actualidade quer da problemática tratada quer do desafio lançado em ordem à criação de uma rede intercongregacional. De igual modo, foi muito apreciada a presença da irmã Matilde Faneca em representação da CIRP. A avaliação dos formadores foi francamente positiva. Seguiu-se uma pequena cerimónia de entrega dos Certificados de Participação por parte do ACIME e da OIM. A Dra. Mónica Goracci (oim), na cessão de encerramento, dirigiu umas palavras de contentamento por se ter realizado esta formação, também com a presença de irmãs de outros países. Manifestou, muito fortemente, o desejo de que esta iniciativa tenha continuidade numa colaboração recíproca no terreno.
S. Domingos de Rana - Torre d’Aguilha 28 de Outubro de 2006
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